Ontem fui para um da série de shows que o Caetano está fazendo aqui na cidade. É um projeto dele chamado Obra em Progresso em que ele toca todas as quartas-feiras no vivorio, mostrando passo à passo, música à música, a criação do seu próximo cd. Teoricamente é uma grande idéia, mas na prática achei um evento pobre, justamente por ser claro a exclusiva presença careta de muitos ricos, muitos vips, muita gente famosa, o que dá a certeza de que o Caetano se rendeu (e sei que há tempos) ao cerco das celebridades. Chegou uma hora em que tive a impressão de que ele estava como que fazendo um show particular para essa elite “intelectual” carioca. Esqueceu o popular? Ou o popular esqueceu dele? O show é muito insosso. Li muitos críticos admirando o “trabalho rock’n'roll” do Caetano, as músicas estão, de fato, pro ctopun quibilly rocksam bamaxi che, mas a presença de palco não tem nada de rock. Os músicos são estátuas com seus instrumentos, se não reparar com muito cuidado parece que nem tocam. Fiquei sentado no meio daquelas celebridades, que demonstravam exaltação com no máximo um UuH!, em outras épocas estaríamos todos levantados, dançando e quebrando a ginga que um dia tivemos. Mas eu já disse tudo, eram outras épocas. No entanto, mesmo com a imobilidade do Caetano, sua atitude compositora realmente tem se mostrado rejuvenescida, muito mais vigorosa que os jovens que o acompanham na Banda Cê, ou a juventude idosa plastificada da platéia.
Das músicas novas há uma que se destaca para mim. Uma cadência hipnotizante, que domina toda a casa, como um canto de um barco ao mar, espécie de sensação que o Caetano tinha conquistado com Zera a Reza. A inédita chama-se Baía de Guatánamo, e tem apenas uma linha de letra:
“O fato dos americanos desrespeitarem os direitos humanos em solo cubano é por demais forte simbolicamente para eu não me abalar. A base da Baía de Guatánamo, a base de Guatánamo.”
Essa é foda. É pra fechar os olhos chapados e ser levado como que uma água viva. Ao vivo é linda, mas você pode tentar se salgar aqui.