Naquele dia lá, depois do Tampinha, indo de carro pra casa de Bezerra, eu e Camilo continuávamos a conversa sobre abandonar a civilização como ela é, ter o Viver como objetivo (não seria óbvio?), experimentar situações, bom, todas essas coisas que você pensa também.
Falei pra ele uma coisa que tinha pensado naquele mesmo dia enquanto assistia O Curioso Caso de Benjamin Button. Era naquela cena depois que ele decide abandonar a mulher e a filha, e cai na vida, vai pra Índia, Tibet, trabalha como segurança, mecânico, enfim, essas coisas que eu achava que deveriam ser DISCUTIDAS no filme, e não apenas mostradas com curtas cenas, ao contrário do foco central no romance. Foram aquelas cenas que me fizeram me deslocar do filme e refletir sobre minha vida. Vou tentar explicar aqui, com alguma organização, o que pensei em segundos:
Naquela cena existiam duas pessoas.
BRAD PITT
BENJAMIN BUTTON
O que essas duas pessoas representam dividem agora as escolhas da minha vida. Um nunca vai ser o outro.
A gente faz um filme e toca as pessoas de alguma forma, mostra cenas dos nossos personagens vivendo na natureza selvagem, trabalhando em empregos bases, morando em lugares belíssimos, experimentando na vida um milhão de vidas. Mas esse ali não somos nós. É um personagem (o cinema gosta de enganar os desavisados) que o Brad Pitt nunca vai ser. Tão pouco Benjamin Button será Brad Pitt, o artista que atinge milhões de pessoas, que pode motivar multidões com suas opiniões. Benjamin, talvez, não alcançaria a gente se não fôsse o Brad Pitt. Entende?
Essa tese fica um tanto fraca no caso desse filme. Mas existe um outro filme, de que estamos mais familiarizados – ao menos em literatura – que é o Na Natureza Selvagem.
Ator: Emile Hirsch
Personagem-real: Chris Mccandless
Um nunca vai ser o outro, e ambos existem (existiram). O filme/livro nos faz acreditar que o caminho que o Chris percorreu é muito mais autêntico, humano, belo, sendo que sem o Emile Hirsch (e o Sean Penn e o Jon Krakauer) ele talvez não teria alcançado o status a que chegou. No meu caso, se eu não tivesse visto o trailer no youtube há um tempão atrás, eu não teria lido o livro, e não teria feito mexer em mim algo que já estava latejando desde a infância.
Digo tudo isso porque Camilo chegou em um ponto muito convincente. Ele pensou/falou que a postura do Chris era um tanto egoísta, por ter o objetivo de “se salvar” e não “salvar” os outros, aquela atitude adolescente vou-embora-daqui-que-se-foda-o-resto. É claro que ele não leu o livro do Krakauer, portanto não sabia que um dos interesses do Chris era logo mais escrever um livro sobre suas experiências. Mas ok. Não escreveu. Ele morreu antes, o que faz do Emile Hirsch (Penn e Krakauer) um canal NECESSÁRIO para que Chris e sua vida (especialmente os últimos dois anos) alcance: eu, você, e todos os outros que agoram sentem-se pertubados com o que grita na natureza de si mesmo. Isso tudo me faz lembrar de que há dez anos atrás eu assistia um filme que mudou meu olhar (sabemos que a arte é capaz disso), e que influencia até hoje não só a minha forma de criar arte, como a de viver a vida. Estou falando de Clube da Luta. Já se passaram dez anos e parece que o filme nunca aconteceu pro mundo. Por mais que ele nos alertasse para termos cuidado com os excessos da sociedade de consumo, a civilização tem perpetuado sua direção em se consumir por inteira. Mas aí também é outro papo.
Aqui chega meu dilema. Brad Pitt, Edward Norton, não são Tyler Durden. Aliás, o primeiro é praticamente o oposto de seu personagem. Mas sem ele quem seria Tyler Durden? Aí que eu cheguei a conclusão de que a minha função não é ser Tyler Durden, nem Brad Pitt, nem Chris nem Emile Hirsch. É exatamente a rota que tange esses dois pontos. É como Jack Kerouack que passou dois anos viajando e escreveu um livro em duas semanas. Experimentar em vida àquilo que se pretende servir pros outros. É ser garçom para falar do garçom, ou melhor, comer o que vem da cozinha antes de servir a mesa. Sei que muitas pessoas, pais, escritores, acadêmicos, filósofos, vão condenar essa idéia, mas eles não vão saber dizer o que pulsa em mim se eu questioná-los no fundo de seus olhos. Não se fala de amor sem amar. O que estou querendo é uma volta à idéia original do Mccandless (se ele não estiver agora em um lugar bem melhor, espero, em que a arte não seja necessária). É preciso experimentar para dizer o que pensa, e mais ainda, para fazer suas crenças chegarem aos outros irmãos, e cá entre nós, isso Walden, Thoreau, Tolstoi já fizeram como exemplo, mas cito Mccandless porque ele percebeu que a obra que viria em seguida seria apenas um desfecho para sua aventura, e não o sentido final.
Estou escrevendo e pensando nisso tudo últimamente porque estou me preparando para publicar um livro que vai expor as vísceras de algumas idéias minhas, e eu tenho que estar pronto para o caso deles quererem me confundir.
Às vezes eu penso sim
queria ir embora por aí
um jornalista deve escrever o que viu
um artista o que viveu.