Esses dias me caiu na retina o vídeo de 26 minutos do cartunista Saul Steinberg falando sobre sua rotina de trabalho. “De manhã eu me levanto e vou trabalhar. É necessário trabalhar por algumas horas. Desenhar é meu jeito de explicar à mim mesmo o que está acontecendo na minha mente. Geralmente começo com uma ideia, depois é que vem a vontade, tenho tudo olhando para mim – papel, tinta, pincel – e algumas vezes começo desenhando no papel uma mão com uma caneta fazendo um desenho. Isso me dá tempo para pensar que desenho essa caneta está fazendo”.

O comentário do Steinberg me fez pensar que quando um artista explica o seu processo parece sempre fácil e fascinante – inclusive para ele –, e quando ele explica o seu trabalho, os conceitos e as ideias, parece complicado e tortuoso.

“Nesse momento estou tirando de mim a responsabilidade sobre o desenho. Eu penso que não sou eu que quero fazer esse desenho mas sim a mão que estou desenhando que quer. Dessa forma me dou a liberdade – eu posso sempre pôr a culpa na mão desenhada.”
O que acontece é que escrever é uma atividade física e não apenas mental. A forma como se executa a tarefa altera o produto realizado. Escrever à mão ou no computador, mesmo que seja o mesmo texto, acaba produzindo resultados diferentes. No computador você pode apagar a frase que foi digitada no exato momento do erro, enquanto que as palavras rabiscadas à caneta no papel permanecem ali, e o escritor tem que avançar mesmo achando que não está bom.

Segundo uma pesquisa realizada na Noruega, a escrita manual “demanda mais esforço e concentração do cérebro, favorecendo o processo de aprendizagem.” Como os tempos atuais exigem agilidade e dinamismo, é muito raro encontrar alguém que não escreva no teclado. Geralmente as pessoas usam cadernos para anotações e o computador para textos mais longos. O termo transcription fluency quer dizer que “quando seus dedos não podem se mover tão rápido quanto seus pensamentos, suas ideias sofrem.” O que quer dizer que quanto mais rápido se escreve, melhor o texto fica.

Discordo um pouco dessa afirmação. Escrever devagar pode ser ótimo à medida em que forçar o cérebro a pensar mais lentamente pode gerar ótimos resultados. Truman Capote escrevia sempre à mão. J. K. Rowling também. E a escritora Lynda Barry escreve os primeiros rascunhos de seus livros muito lentamente com um pincel:

Eu gosto de alternar os processos. Ter um computador com internet atrapalha, então ultimamente tenho preferido escrever em cadernos. Posso passar horas rabiscando páginas e páginas sem me distrair com e-mails ou tweets. Aproveito para revisar o texto na hora de transcrevê-lo. Mais importante que isso é, seja qual for o meio, acordar e trabalhar todos os dias. Mesmo que não saia bom, que não seja o imaginado, pode-se sempre jogar a responsabilidade em outra coisa, como a mão de Steinberg.